|
HISTÓRIA DO NAVIO
KASATO MARU
Ao
término de 1899, a armadora britânica
Pacific Steam Navigator Company (PSNC) planejou um bom número de
vapores
destinados a renovar a sua frota.
Dentre
estes,
foi encomendado um par de navios gêmeos ao Estaleiro Wigham
Richardson, situado
no Rio Tyne, próximo ao Porto de Newcastle.
O
primeiro
deste par foi lançado ao mar em junho de 1900, com o nome de
Potosi, o segundo,
um ano mais tarde e batizado Galicia.
De
desenho
tradicionalmente britânico, com casa de comando separada da
superestrutura
central, eram navios destinados a ter capacidade mista.
Possuíam
casco de aço, seis porões de carga, três conveses,
duas hélices, única chaminé
e maquinário de expansão tríplice.
O
Galicia,
porém, não foi dotado de instalações para
passageiros, ao contrário do Potosi,
que podia transportar duas dezenas de pessoas em segunda classe e cerca
de 780
emigrantes alojados em grandes espaços comuns de terceira classe.
O
Potosi
nunca chegou a navegar com esse nome. Quando se encontrava em fase de
aprestamento,
foi visitado por responsáveis da organização
denominada Frota de Voluntários
Russos (RVF), os quais procuraram na Inglaterra navios para comprar. O
Potosi
foi um dos escolhidos e a oferta da RVF foi aceita pela PSNC.
Os
novos
proprietários ordenaram então ao estaleiro construir uma
série de modificações
estruturais para adapta-lo como transporte de tropas.
Rebatizado
Kazan, o vapor saiu, em setembro de 1900, de Newcastle para Odessa.
Podia
transportar cerca de 2 mil homens e logo após a sua chegada ao
porto russo foi
integrado como navio auxiliar da Frota do Extremo Oriente.
Em
1904, com
a eclosão do conflito com o Japão, o Kazan foi
transformado em navio-hospital e
nessa condição foi afundado nas águas pouco
profundas de Porto Arthur por
ocasião do ataque conduzido pelos cinco contratorpedeiros
nipônicos.
Após
a
captura desse porto pelos japoneses (em 1905), o vapor foi recuperado
do fundo
do mar e restaurado, passando ao serviço da Marinha Imperial do
Japão, como
transporte auxiliar, com o nome de Kasato Maru.
No
ano
seguinte, o navio foi afretado à armadora Tokyo Kisen, e por
esta, utilizado na
inauguração da nova linha entre o Japão e a Costa
Oeste da América do Sul.
Em
1908,
quando a Companhia Kokoku necessitava de um vapor para expedir seus
primeiros
emigrantes ao Brasil, é o Kasato Maru o navio escolhido.
Esta
leva de
imigrantes nipônicos chegando em terras brasileiras era a
conseqüência da
assinatura, em 1906, de um acordo entre o Japão e o Brasil,
estabelecendo um
tratado de amizade entre as duas nações.
Em
novembro
do ano seguinte, o então secretário da Agricultura do
Estado de São Paulo,
Carlos Botelho, e Ryu Misuno, representando a Companhia Japonesa de
Imigração
Kokoku, firmaram contrato, autorizando a chegada de 15 mil imigrantes.
Em
28 de abril
de 1908, o Kasato Maru zarpou de Kobe, tendo a bordo 781 emigrantes
destinados
à lavoura paulista.
Após
50 dias
de viagem, o vapor atraca em Santos, em 18 de junho, marcando o
início do fluxo
de imigração japonesa no Brasil, fluxo esse que em 70
anos traria quase 800 mil
indivíduos de um povo portador de milenar cultura formada por
conhecimentos de
ordem prática e sabedoria filosófica.
À
viagem
primeira do Kasato Maru, seguiram-se entre 1908 e 1914, outras nove,
feitas por
vapores diferentes, que desembarcaram em Santos um total de 133.200
imigrantes.
Além
dessas
viagens extraordinárias, feitas exclusivamente para o transporte
de imigrantes,
nenhum outro navio japonês aportava em portos brasileiros,
não existindo ainda
qualquer linha regular entre os dois países, tal fato só
acontecendo em finais
de 1916, por iniciativa da Osaka Shosen Kaisha (OSK).
A
armadora
Osaka Shosen Kaisha, em 1910, afretou o Kasato Maru pra sua linha
comercial
entre Kobe e Keelung.
Dois
anos
mais tarde, a OSK decide comprar o navio e reforma-lo. Após
alguns meses de
trabalho, o Kasato Maru volta a serviço, podendo acomodar um
total de 520
passageiros em três classes diferentes.
Em
dezembro
de 1916, estando o Japão neutro no conflito que se desenrolava
na Europa, a OSK
decide inaugurar uma nova linha entre portos japoneses e portos da
costa leste
da América do Sul, via Oceano Índico, e o Kasato Maru
é escolhido para
inaugura-la, realizando viagem de Kobe a Buenos Aires, via
inúmeros portos de
escala intermediária.
No
entretempo, o Galicia, navio-irmão do ex-Potosi, após
permanecer durante 16
anos a serviço da armadora PSNC como navio de carga, empregado
sobretudo na
rota entre Liverpool e Valparaíso (Chile), foi vitima dos
acontecimentos
bélicos, sendo perdido em maio de 1917 ao largo da localidade de
Teignmouth
devido à explosão de uma mina naval.
A
entrada em
serviço na rota de ouro e prata de uma nova série de
vapores, maiores e mais
velozes, a partir do início da década de 20, fez com que
a OSK retirasse da
mesma os navios mais antigos.
Foi
o caso do
Kasato Maru, que, após uma substancial reforma, voltou a servir
a linha entre o
Japão e Taiwan.
Em
1930, foi
vendido a uma empresa de pesca japonesa, sendo então convertido
em
navio-fábrica, função que manteve até seu
destino final, sendo afundado em
meados de 1945, no Mar de Okhotsk, águas japonesas, durante um
violento ataque
aéreo norte-americano.
Autor:
José
Carlos Rossini, colaboração de Laine Giraud |