
{"id":222,"date":"2012-08-31T16:19:51","date_gmt":"2012-08-31T19:19:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/imigracaojaponesa2012\/?page_id=222"},"modified":"2012-08-31T16:22:03","modified_gmt":"2012-08-31T19:22:03","slug":"hermengarda-e-takeshita","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/entrevistas\/hermengarda-e-takeshita\/","title":{"rendered":"Hermengarda e Takeshita"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Subindo com o pequeno elevador num dos in\u00fameros edif\u00edcios da pra\u00e7a Carlos Gomes, no bairro da Liberdade, deparamos com um apartamento, um dos pouco ainda n\u00e3o dominados pelos escrit\u00f3rios de advocacia, corretoras ou dentistas que se espalharam pelos edif\u00edcios da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00e1 que mora um dos primeiros casais nipo-brasileiros, completando 50 anos de casamento: Hermengarda Leme Leite Takeshita (natural de Franca) que ainda conserva um pouco dos costumes da fam\u00edlia paulista \u201cde quatrocentos anos\u201d e o Kwanichi Takeshita (natural de T\u00f3quio) que possui os tra\u00e7os de um imigrante japon\u00eas, apesar de estar h\u00e1 55 anos no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, felizes, comemoram as Bodas de Ouro, mas a vida para o casal n\u00e3o foi um mar de rosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se hoje ainda persistem algumas velhas tradi\u00e7\u00f5es e os antigos preconceitos contra o casamento inter-\u00e9tnico, pode-se imaginar como era h\u00e1 50 anos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historia do casal come\u00e7a em 16 de maio de 1924, quando Kwanichi Takeshita, ent\u00e3o com 21 anos de idade, desembarcava em Santos, desistindo de sua meta inicial que era os Estados Unidos, e tendo em seu curr\u00edculo, os dois anos de Economia Pol\u00edtica que havia cursado na Universidade Wasseda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo ap\u00f3s o desembarque, Takeshita foi morar em Guatapar\u00e1, um dos n\u00facleos da coloniza\u00e7\u00e3o japonesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta \u00e9poca, Hermengarda lecionava em Guatapar\u00e1: \u201cTinha chegado um japon\u00eas em nossa pequena cidade e que n\u00e3o falava portugu\u00eas. S\u00f3 ingl\u00eas: Todo o mundo queria conhecer e conversar com ele. Assim n\u00e3o podia dar as minhas aulas\u201d. Afirma sorrindo e complementa: \u201cTakeshita tocava gaita e ia fazer serenata para n\u00f3s. Naquela \u00e9poca, sair da fazenda era dif\u00edcil. Muitos fugiam e eram mortos. Mas Takeshita recebeu ordens para deixar a fazenda por causa do mau exemplo que estava dando\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, em 31 de outubro de 1924, Takeshita chegava a cidade de S\u00e3o Paulo, onde na esquina da rua XV de novembro com a rua Direita, ficou parado para ver se passava algum japon\u00eas, pois ainda n\u00e3o conseguia falar portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De janeiro de 1925 at\u00e9 1933, Takeshita lecionou na Taish\u00f4 Shogakk\u00f4, escola da col\u00f4nia japonesa. Gostava dessa profiss\u00e3o porque sobrava-lhe tempo para praticar o t\u00eanis, seu esporte predileto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEm casa, todas as sextas tinha reuni\u00e3o, e o Takeshita perguntou-me se tinha coragem de ir para o Jap\u00e3o com ele. Eu respondi que sim\u201d, relembra Hermengarda levemente comovida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Casamento<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Casaram-se no dia 23 de outubro no consulado Japon\u00eas e no dia 6 de novembro de 1929 no Cart\u00f3rio. Quanto a isso, dona Hermengarda guarda n\u00edtidas recorda\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu fui com a raquete de t\u00eanis para o Cart\u00f3rio, na volta do clube, e levamos todos os papeis. As testemunhas eram todos japoneses.\u201d Nesta \u00e9poca, j\u00e1 estava com o passaporte preparado para ir morar no Jap\u00e3o, conforme haviam planejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Casaram, mas continuaram morando separados como se nada tivesse acontecido. A fam\u00edlia tamb\u00e9m n\u00e3o ficou sabendo de nada durante um m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDeixa de ser besta\u201d foi a resposta da sua m\u00e3e ao tomar conhecimento do casamento. Hermengarda conta como foram as rea\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; No come\u00e7o ningu\u00e9m acreditou, mas depois, com a apresenta\u00e7\u00e3o dos papeis, foram obrigados a admitir. Papai me deserdou e os parentes at\u00e9 os amigos e amigas me hostilizaram. A col\u00f4nia japonesa tamb\u00e9m n\u00e3o viu com bons olhos a nossa uni\u00e3o. Todo mundo parava para olhar. No cinema, mesmo no escuro, todos olhavam. A mam\u00e3e foi a primeira a nos procurar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E Takeshita completa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fui no hotel onde estava hospedado o pai de Hermengarda (que era advogado), para dar satisfa\u00e7\u00f5es, mas ele reagiu t\u00e3o furiosamente que pensei que nunca mais ir\u00edamos nos entender. Depois, ele come\u00e7ou a compreender-nos, ate que nos tornamos muito amigos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Segunda Guerra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da II Guerra Mundial, a vida n\u00e3o era f\u00e1cil para o casal, que residindo na rua Apia\u00ed (hoje, o mesmo trecho chama-se Francisco Justino de Azevedo \u2013 Cambuci) e sem recursos, chegaram a vender os moveis e ate as roupas para sobreviverem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO Takeshita ia vender batata e era preso porque falava japon\u00eas, e eu precisava pagar a fian\u00e7a par liberta-lo sempre\u201d, afirma Hermengarda que acredita ter sido aquela, a \u00e9poca mais dif\u00edcil na vida do casal. E foi durante a guerra mesmo que ela escreveu o livro \u201cSakur\u00e1\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sakur\u00e1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autora do Sakur\u00e1 conta que numa noite de tempestade e muito triste, quando Takeshita estava no cassino tentando ganhar algum dinheiro com apostas, na passagem mais amarga das recorda\u00e7\u00f5es do casal, ela decidiu: \u201cO tempo que vou gastar chorando, vou gastar escrevendo um livro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da Guerra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seq\u00fc\u00eancia dos anos dif\u00edceis para a vida do casal, se prolongou ainda por muito tempo. Mesmo durante a guerra, eles tiveram que mudar para Campos de Jord\u00e3o, para fugir das pris\u00f5es freq\u00fcentes com que Takeshita vinha sendo atormentadoem S\u00e3o Paulo. EmCampos de Jord\u00e3o, enquanto Hermengarda organizava um col\u00e9gio rec\u00e9m-fundado e ajudava nos servi\u00e7os caseiros, Takeshita foi morar num s\u00edtio, onde havia planta\u00e7\u00e3o de cenoura, trabalhando nos servi\u00e7os de lavoura e dormindo no ch\u00e3o de terra batida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 1955 at\u00e9 recentemente, Takeshita traduziu os filmes japoneses das companhias Shochiku, Toei e Toho, as tr\u00eas empresas que suprem o mercado brasileiro com pel\u00edculas japonesas, chegando a soma de 1300 filmes traduzidos por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Hermengarda, fundadora da \u201cAssembl\u00e9ia Juvenil de Boa Vontade\u201d, entidade que prestou muitos servi\u00e7os \u00e0 comunidade paulistana, al\u00e9m de publicar \u201cSakur\u00e1\u201d, publicou o livro \u201cEstranhos Visitantes\u201d, uma novela infantil que obteve bastante sucesso, cuja renda foi revertida em benef\u00edcio dos leprosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros livros ainda in\u00e9ditos, fazem parte do seu arquivo, e que pretende,\u00a0<strong>se Deus quiser<\/strong>, publicar: \u201cJo\u00e3ozinho no Planeta Azul\u201d que recebeu recentemente elogiosos coment\u00e1rios do jornal \u201cPopular da Tarde\u201d, antes mesmo de ser editado, \u201cQuando o Diabo Sorri\u201d e \u201cMoinho de Vento\u201d. Fora os livros, existem muitos contos e poesias, dentre os quais, muitos j\u00e1 foram publicados em jornais e revistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso al\u00e9m das mem\u00f3rias que ela prepara agora com muito carinho, e que poder\u00e1 chamar \u201cMem\u00f3rias de Uma Vida Faz de Contas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autor: Francisco Noriyuki Sato<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mat\u00e9ria Publicada em 6\/11\/1979, no S\u00e3o Paulo Shimbun.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Junho de 1980, Hermengarda viu sua obra \u201cJo\u00e3ozinho no Planeta Azul\u201d publicada. Sua biografia que recebeu o nome de \u201cUm Grito de Liberdade\u201d, foi publicada em 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hermengarda Leme Leite Takeshita faleceu no ano seguinte, e Kwanichi Takeshita, alguns anos depois. O casal continuou na Pra\u00e7a Carlos Gomes at\u00e9 o fim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Subindo com o pequeno elevador num dos in\u00fameros edif\u00edcios da pra\u00e7a Carlos Gomes, no bairro da Liberdade, deparamos com um apartamento, um dos pouco ainda n\u00e3o dominados pelos escrit\u00f3rios de advocacia, corretoras ou dentistas que se espalharam pelos edif\u00edcios da regi\u00e3o. \u00c9 l\u00e1 que mora um dos primeiros casais nipo-brasileiros, completando 50 anos de casamento: <a href='http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/entrevistas\/hermengarda-e-takeshita\/' class='excerpt-more'>[&#8230;]<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":75,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/222"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=222"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/222\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":224,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/222\/revisions\/224"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/75"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}