
{"id":66,"date":"2012-06-14T15:37:36","date_gmt":"2012-06-14T18:37:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/imigracaojaponesa2012\/?page_id=66"},"modified":"2012-09-04T00:54:30","modified_gmt":"2012-09-04T03:54:30","slug":"historia-da-imigracao-parte-1","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/nossa-historia\/historia-da-imigracao-parte-1\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da imigra\u00e7\u00e3o &#8211; parte 1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Processos de migra\u00e7\u00e3o, emigra\u00e7\u00e3o e imigra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra pelo mundo inteiro j\u00e1 foram assunto de livros, filmes e novelas. A causa principal para tantas pessoas &#8211; milh\u00f5es, em \u00e9pocas diferentes e de lugares diversos &#8211; \u00e9 sempre a mesma: buscar oportunidades de trabalho e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, que n\u00e3o s\u00e3o oferecidas em seus pa\u00edses de origem. O resultado \u00e9 que varia. Ap\u00f3s lutas, dramas e conflitos, alguns terminam em fracasso, e outros em comoventes hist\u00f3rias de sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da imigra\u00e7\u00e3o japonesa no Brasil \u00e9 a hist\u00f3ria de uma saga que ainda n\u00e3o terminou, e de uma das experi\u00eancias bem-sucedidas de integra\u00e7\u00e3o mais improv\u00e1veis que j\u00e1 ocorreram no conturbado s\u00e9culo XX.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">AS RAZ\u00d5ES DO BRASIL, OS MOTIVOS DO JAP\u00c3O.<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 fato inconteste e amplamente divulgado que o navio Kasato Maru trouxe ao Brasil a primeira leva de imigrantes japoneses em 1908, iniciando de maneira efetiva o processo de imigra\u00e7\u00e3o. Hoje em dia muitos t\u00eam &#8211; talvez em fun\u00e7\u00e3o de telenovelas &#8211; a limitada e distorcida imagem de que o fen\u00f4meno imigrat\u00f3rio iniciou-se de modo ing\u00eanuo e rom\u00e2ntico, com a chegada de povos ex\u00f3ticos que se aventuraram a \u201cfazer a Am\u00e9rica\u201d num pa\u00eds tropical, sensual e feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de imigra\u00e7\u00e3o japonesa no Brasil iniciou-se bem antes de 1908 e em condi\u00e7\u00f5es pouco rom\u00e2nticas. O Kasato Maru foi apenas o primeiro resultado de anos de discuss\u00f5es, impasses e negocia\u00e7\u00f5es entre Brasil e Jap\u00e3o. Para entender por que a imigra\u00e7\u00e3o ocorreu, \u00e9 preciso antes entender a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtico-econ\u00f4mica em que se encontravam ambos os pa\u00edses na segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XIX a economia do Brasil era agr\u00edcola e extremamente dependente da monocultura cafeeira. A cultura do caf\u00e9, por sua vez, dependia totalmente da m\u00e3o-de-obra de escravos negros. Em 1888, atendendo a press\u00f5es pol\u00edticas e movimentos humanit\u00e1rios, o governo brasileiro aboliu a escravid\u00e3o no pa\u00eds, e os senhores do caf\u00e9 tiveram que buscar solu\u00e7\u00f5es para a crescente falta de m\u00e3o-de-obra. Antes mesmo da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, o governo brasileiro tentou suprir a falta de trabalhadores com imigrantes europeus, mas as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida dadas pelos patr\u00f5es cafeicultores, acostumados a tratar de forma sub-humana sua m\u00e3o-de-obra, al\u00e9m de desmotivar a vinda de imigrantes fez com que alguns pa\u00edses, como a Fran\u00e7a e a It\u00e1lia, at\u00e9 impedissem durante alguns anos que seus cidad\u00e3os emigrassem para o Brasil. Assim, o governo brasileiro passou a cogitar trazer imigrantes da \u00c1sia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o bastava, entretanto, trocar um tipo de imigrante por outro. No s\u00e9culo XIX os brancos crist\u00e3os tinham um forte preconceito contra todo o resto da humanidade, e no Brasil os asi\u00e1ticos eram tidos como \u201cnegros amarelos\u201d. Em 1880, Oliveira Martins, escritor e pol\u00edtico portugu\u00eas, chegou a publicar argumentos contra a imigra\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica afirmando que \u201ca perigosa tenta\u00e7\u00e3o de ir buscar bra\u00e7os a outro viveiro de ra\u00e7as inferiores prol\u00edficas embriaga muitos esp\u00edritos\u201d, e conclu\u00eda com \u201cum Brasil europeu e n\u00e3o asi\u00e1tico, uma na\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma col\u00f4nia, eis a\u00ed o seguro porvir da Antiga Am\u00e9rica portuguesa\u201d. Entre julho e agosto de 1892, o jornal Correio Paulistano publicou artigos de Francisco Cepeda que se referia aos asi\u00e1ticos com express\u00f5es como \u201cse a esc\u00f3ria da Europa n\u00e3o nos conv\u00e9m, menos nos convir\u00e1 a da China e do Jap\u00e3o\u201d, e que \u201co chim \u00e9 bom, obediente, ganha muito pouco, trabalha muito, apanha quando \u00e9 necess\u00e1rio, e quando tem saudades da p\u00e1tria enforca-se ou vai embora\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/KasatoMaru.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-125\" title=\"KasatoMaru\" src=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/KasatoMaru.jpg\" alt=\"\" width=\"378\" height=\"262\" srcset=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/KasatoMaru.jpg 630w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/KasatoMaru-300x207.jpg 300w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/KasatoMaru-150x103.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/a>Em suma, imigrantes japoneses n\u00e3o eram desejados no Brasil. Por\u00e9m \u00e9 fato universal que quando se h\u00e1 necessidade de trabalhadores, governos e contratadores tornam-se mais convenientes e menos exigentes. Assim, embora desde 1880 j\u00e1 se cogitasse no Brasil a vinda de imigrantes japoneses, nenhuma a\u00e7\u00e3o concreta foi realizada neste sentido at\u00e9 5 de novembro de 1895, quando Brasil e Jap\u00e3o assinaram um tratado pelo qual ambos os pa\u00edses passaram a desenvolver rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, e mesmo contrariando a opini\u00e3o p\u00fablica brasileira, abriram-se negocia\u00e7\u00f5es para a vinda de imigrantes japoneses, que chegaria \u00e0s vias de fato s\u00f3 a partir de 1908.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que fazia os japoneses se interessarem em ir para lugares distantes cuja popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o era exatamente receptiva? O Jap\u00e3o da segunda metade do s\u00e9culo XIX foi um pa\u00eds de dram\u00e1ticas transforma\u00e7\u00f5es. Durante dois s\u00e9culos e meio o Jap\u00e3o esteve isolado do resto do mundo, sob o controle pol\u00edtico dos x\u00f3guns da fam\u00edlia Tokugawa. A sociedade japonesa era feudal e a economia estava estagnada num sistema agr\u00e1rio e dependente da cultura do arroz, enquanto as pot\u00eancias ocidentais, industrializadas e tecnologicamente avan\u00e7adas, conquistavam col\u00f4nias na \u00c1frica e \u00c1sia. A partir de 1854, com navios americanos e ingleses exigindo com uso de canh\u00f5es a abertura dos portos japoneses, o enfraquecido governo xogunal teve que ceder crescentes privil\u00e9gios comerciais aos estrangeiros, o que gerou uma crise interna sem precedentes. Revoltas levaram a uma guerra civil, que culminou em 1868 com a vit\u00f3ria dos que queriam a restaura\u00e7\u00e3o do poder ao imperador, e que defendiam a moderniza\u00e7\u00e3o r\u00e1pida do Jap\u00e3o em moldes ocidentais. Era o in\u00edcio da Era Meiji (1868-1912).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/CARTAZ-IMIGRACAO.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-126\" title=\"CARTAZ IMIGRACAO\" src=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/CARTAZ-IMIGRACAO.jpg\" alt=\"\" width=\"243\" height=\"338\" srcset=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/CARTAZ-IMIGRACAO.jpg 243w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/CARTAZ-IMIGRACAO-215x300.jpg 215w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/CARTAZ-IMIGRACAO-107x150.jpg 107w\" sizes=\"(max-width: 243px) 100vw, 243px\" \/><\/a>Em 20 anos, a moderniza\u00e7\u00e3o Meiji revolucionou o pa\u00eds, propiciando oportunidades para a aristocracia, que ocupou importantes cargos na nova estrutura pol\u00edtico-governamental, e para uma emergente burguesia que enriqueceu com os m\u00e9todos industriais e financeiros importados do ocidente. Mas os benef\u00edcios do enriquecimento do pa\u00eds ficaram nas m\u00e3os de poucos, e fazer rapidamente do Jap\u00e3o uma pot\u00eancia b\u00e9lica do mesmo n\u00edvel que as pot\u00eancias ocidentais foi mais priorit\u00e1rio que necessidades sociais. A maior parte da popula\u00e7\u00e3o vivia no campo, onde impostos crescentes levavam mais e mais fam\u00edlias \u00e0 fome. Em busca de empregos e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, muitos migraram do campo para as cidades, e outros migraram para o extremo norte, na ilha de Hokkaido, onde ainda haviam regi\u00f5es a ser desbravadas. Entretanto, sendo o Jap\u00e3o um arquip\u00e9lago superpovoado, as op\u00e7\u00f5es logo se escassearam e o governo japon\u00eas passou a promover a emigra\u00e7\u00e3o como alternativa. A primeira emigra\u00e7\u00e3o oficial ocorreu em 1883, quando japoneses foram para a Austr\u00e1lia para trabalhar na pesca de p\u00e9rolas. A partir de 1885 o fluxo emigrat\u00f3rio ganhou import\u00e2ncia, quando japoneses passaram a ir para o ent\u00e3o reino independente do Hava\u00ed. Nos anos subseq\u00fcentes, Canad\u00e1, Estados Unidos e Peru tamb\u00e9m se tornaram destino de milhares de trabalhadores nip\u00f4nicos. Entre a pobreza em casa e um trabalho em terras estrangeiras &#8211; que por mais legalizado que fosse tinha obviamente muitos riscos &#8211; muitos japoneses preferiram a segunda op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">CHEGAM OS JAPONESES<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve o impacto do encontro de dois povos que se desconheciam. \u00c9 sabido que popularmente os brasileiros tinham preconceito contra os japoneses &#8211; um preconceito todo fundado em mistifica\u00e7\u00e3o, uma vez que at\u00e9 a vinda dos imigrantes n\u00e3o havia um conv\u00edvio de fato entre brasileiros e japoneses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contrariando as expectativas negativas de como efetivamente eram os japoneses, J. Am\u00e2ndio Sobral, inspetor de imigrantes do Estado de S\u00e3o Paulo, redigiu um extenso artigo publicado no jornal Correio Paulistano de 26 de junho de 1908, descrevendo suas impress\u00f5es sobre os imigrantes nip\u00f4nicos. Sob efeito deste primeiro impacto, em seu texto Sobral expressa abertamente que os elogios que faz ao comportamento e \u00e0 apar\u00eancia dos japoneses n\u00e3o eram um exagero de sua parte, relatando que o grau de limpeza de \u201cgente de humilde camada social do Jap\u00e3o\u201d era qualificado como \u201cinexced\u00edvel\u201d, e que \u201chouve em Santos quem afirmasse que o navio japon\u00eas apresentava em sua 3\u00aa classe mais asseio e limpeza que qualquer transatl\u00e2ntico europeu de 1\u00aa classe\u201d. Ao deixarem o trem que os trouxe de Santos \u00e0 hospedaria de imigrantes em S\u00e3o Paulo, ele observou que \u201csa\u00edram todos dos vag\u00f5es na maior ordem e, depois de deixarem estes, n\u00e3o se viu no pavimento um s\u00f3 cuspo, uma casca de fruta\u201d. Na hospedaria, os japoneses \u201ct\u00eam feito as suas refei\u00e7\u00f5es sempre na melhor ordem e, apesar de os \u00faltimos a fazerem duas horas depois dos primeiros, sem um grito de gaiatice, um sinal de impaci\u00eancia ou uma voz de protesto\u201d (&#8230;) \u201csurpreendeu a todos o estado de limpeza em que ficou o sal\u00e3o: nem uma ponta de cigarro, nem um cuspo, perfeito contraste com as cuspideiras e pontas de cigarro esmagadas com os p\u00e9s de outros imigrantes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin999.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-127 alignright\" title=\"histo_imin999\" src=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin999.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"320\" srcset=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin999.jpg 500w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin999-224x300.jpg 224w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin999-112x150.jpg 112w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a>Muitos chegaram com pequenas bandeiras do Brasil e do Jap\u00e3o feitas de seda nas m\u00e3os, \u201ctrazidas de prop\u00f3sito para nos serem am\u00e1veis. Delicadeza fina, reveladora de uma educa\u00e7\u00e3o apreci\u00e1vel\u201d, observou Sobral. E todos se vestiam de modo simples mas \u00e0 ocidental &#8211; o que na \u00e9poca foi algo inesperado. \u201cA vestimenta europ\u00e9ia conquista terreno no imp\u00e9rio do Sol Nascente. Foram os pr\u00f3prios imigrantes que compraram as suas roupas, adquiridas com seu dinheiro, e s\u00f3 trouxeram roupa limpa, nova, causando uma impress\u00e3o agrad\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois aspectos que chamaram a aten\u00e7\u00e3o de Sobral s\u00e3o curiosos. Ele observou que a bagagem dos japoneses \u201cn\u00e3o parece bagagem de gente pobre, contrastando flagrantemente com os ba\u00fas de folha e trouxas dos nossos oper\u00e1rios\u201d. Os japoneses eram imigrantes pobres, mas agiam com dignidade e educa\u00e7\u00e3o. Trouxeram malas de vime, roupas e objetos simples, mas limpos ou novos. Pela descri\u00e7\u00e3o da bagagem no relat\u00f3rio, verifica-se que todos tinham poucas mas mesmas coisas: escova e p\u00f3 dental, pente e navalha de barba (itens de higiene pessoal que na \u00e9poca muitos imigrantes europeus e at\u00e9 mesmo brasileiros n\u00e3o tinham); futons, makuras (travesseiros) de madeira e casacos (artigos t\u00eaxteis caros para imigrantes); pequenas ferramentas, utens\u00edlios de cozinha e frasquinhos para shoyu. A maioria trouxe livros, tinta e papel (coisas que eram consideradas um \u201cluxo\u201d para trabalhadores bra\u00e7ais). De 781 pessoas, verificou-se que menos de 100, ou cerca de 13% delas, eram analfabetas &#8211; um baixo \u00edndice de analfabetismo na \u00e9poca. Estes eram os objetos que os japoneses, mesmo sendo pobres, se esfor\u00e7aram para comprar e trazer do Jap\u00e3o, e que consideravam indispens\u00e1veis para come\u00e7ar uma vida longe da terra natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro foi o grau de confian\u00e7a que os japoneses tinham em suas mulheres, \u201ca ponto de, para n\u00e3o interromperem uma li\u00e7\u00e3o advent\u00edcia de portugu\u00eas, lhes confiarem a troca de seu dinheiro japon\u00eas em moeda portuguesa\u201d. Na \u00e9poca, os homens no ocidente n\u00e3o confiavam em suas esposas para lidar com assuntos relacionados a dinheiro, mas as japonesas faziam c\u00e2mbio para seus maridos. Os imigrantes japoneses eram pobres, mas n\u00e3o eram miser\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin_trem1914.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-128\" title=\"histo_imin_trem1914\" src=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin_trem1914.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"181\" srcset=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin_trem1914.jpg 750w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin_trem1914-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/histo_imin_trem1914-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/a>Sobral terminou seu longo relat\u00f3rio observando que \u201cos empregados da alf\u00e2ndega declaram que nunca viram gente que tenha, com tanta ordem e com tanta calma, assistido \u00e0 confer\u00eancia de suas bagagens, e nem uma s\u00f3 vez foram apanhados em mentira. Se esta gente, que \u00e9 todo trabalho, for neste o que \u00e9 no asseio, (nunca veio pela imigra\u00e7\u00e3o gente t\u00e3o asseada), na ordem e na docilidade, a riqueza paulista ter\u00e1 no japon\u00eas um elemento de produ\u00e7\u00e3o que nada deixar\u00e1 a desejar. A ra\u00e7a \u00e9 muito diferente, mas n\u00e3o inferior. N\u00e3o fa\u00e7amos, antes do tempo, ju\u00edzos temer\u00e1rios a respeito da a\u00e7\u00e3o do japon\u00eas no trabalho nacional\u201d. Este foi o testemunho de um brasileiro que, tanto como outros, jamais havia lidado um japon\u00eas, mas que por for\u00e7a da profiss\u00e3o foi o primeiro a conviver com os imigrantes pioneiros durante semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil precisar que impress\u00f5es os japoneses tiveram ao chegar no Brasil, visto que os imigrantes do Kasato Maru n\u00e3o deixaram registros escritos sobre isso. \u00c9 certo, entretanto, que os membros da primeira leva de imigrantes n\u00e3o tinham, em princ\u00edpio, a inten\u00e7\u00e3o de se radicar de vez no Brasil. Trazidos pela empresa Teikoku Imin Kaisha (Companhia Imperial de Imigra\u00e7\u00e3o), que firmou em 1907 contrato com a Secretaria de Agricultura do Estado de S\u00e3o Paulo para alocar 3 mil imigrantes at\u00e9 1910 como empregados de v\u00e1rias fazendas de caf\u00e9 no estado, os japoneses pretendiam ficar por cinco anos &#8211; per\u00edodo em que, de acordo com informa\u00e7\u00f5es dadas pelos agentes de emigra\u00e7\u00e3o no Jap\u00e3o, daria para ganhar o suficiente para retornar com economias. Os imigrantes pioneiros tinham a certeza de que iriam trabalhar muito, de que iriam ter que enfrentar dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o devido a diferen\u00e7as extremas de l\u00edngua e costumes, mas a expectativa de poder retornar ao Jap\u00e3o com poupan\u00e7as significativas os motivava a manter o esp\u00edrito elevado. Mas os imigrantes logo descobririam que seria necess\u00e1rio mais do que a determina\u00e7\u00e3o samurai para sobreviver \u00e0 realidade que os aguardava no Brasil.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">MEIAS VERDADES, TOTAL SOFRIMENTO.<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/1928familia-Ono-Kobe.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright  wp-image-129\" title=\"1928familia Ono Kobe\" src=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/1928familia-Ono-Kobe.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"240\" srcset=\"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/1928familia-Ono-Kobe.jpg 626w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/1928familia-Ono-Kobe-300x239.jpg 300w, http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/1928familia-Ono-Kobe-150x119.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a>Apesar de um certo grau de participa\u00e7\u00e3o de governos no estabelecimento de regras para enviar e receber imigrantes, o agenciamento dessa m\u00e3o-de-obra era essencialmente um neg\u00f3cio feito por empresas privadas l\u00e1 e c\u00e1, e a quantidade de empresas que existiam indica que a imigra\u00e7\u00e3o era um neg\u00f3cio atraente e lucrativo. Para atrair o maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel, as ag\u00eancias investiam em propagandas que nem sempre correspondiam \u00e0 realidade. No caso do Brasil &#8211; pa\u00eds totalmente desconhecido e ex\u00f3tico para os japoneses &#8211; informa\u00e7\u00f5es atraentes eram superavaliadas. O caf\u00e9 era descrito como \u201ca \u00e1rvore que d\u00e1 ouro\u201d, e a produtividade da planta seria tamanha que os galhos envergavam com o peso dos frutos, e que bastava facilmente colh\u00ea-los com as m\u00e3os. Se tudo corresse do modo que as ag\u00eancias divulgavam, em um m\u00eas uma fam\u00edlia com tr\u00eas membros trabalhando no cafezal receberiam o equivalente a 135 ienes no c\u00e2mbio da \u00e9poca (uma quantia fant\u00e1stica, considerando que o sal\u00e1rio mensal de um policial no Jap\u00e3o era de 10 ienes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras informa\u00e7\u00f5es eram convenientemente vagas ou incompletas. O contratador brasileiro comprometia-se a \u201cdar moradia\u201d a cada fam\u00edlia imigrante &#8211; mas no contrato de imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se especificavam as condi\u00e7\u00f5es de tal moradia. A alimenta\u00e7\u00e3o era por conta de cada fam\u00edlia &#8211; mas n\u00e3o se explicava o explorat\u00f3rio \u201csistema do armaz\u00e9m\u201d at\u00e9 que os imigrantes j\u00e1 estivessem na fazenda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Processos de migra\u00e7\u00e3o, emigra\u00e7\u00e3o e imigra\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra pelo mundo inteiro j\u00e1 foram assunto de livros, filmes e novelas. A causa principal para tantas pessoas &#8211; milh\u00f5es, em \u00e9pocas diferentes e de lugares diversos &#8211; \u00e9 sempre a mesma: buscar oportunidades de trabalho e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, que n\u00e3o s\u00e3o oferecidas em seus pa\u00edses <a href='http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/nossa-historia\/historia-da-imigracao-parte-1\/' class='excerpt-more'>[&#8230;]<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":42,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/66"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66"}],"version-history":[{"count":13,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/66\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":124,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/66\/revisions\/124"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/42"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}