
{"id":314,"date":"2012-11-23T18:18:43","date_gmt":"2012-11-23T21:18:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/?page_id=314"},"modified":"2013-09-04T10:10:08","modified_gmt":"2013-09-04T13:10:08","slug":"julio-shimamoto","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/entrevistas\/julio-shimamoto\/","title":{"rendered":"Julio Shimamoto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entrevista com Noriyuki Sato, em setembro de 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senhor nasceu em Borborema, mas me parece que hoje n\u00e3o \u00e9 uma cidade cheia de japoneses. Como era essa cidade e o que os japoneses faziam l\u00e1?<br \/>\n<strong>Com certeza, restam poucas fam\u00edlias de japoneses e nisseis por l\u00e1. Borborema sempre foi uma cidade pequena, de apenas 545 km\u00b2. Pelo censo dos anos 90, sua popula\u00e7\u00e3o era de apenas 12.469 habitantes. Com a altitude de 420 m, dista 370 km da cidade de S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<\/strong><strong>Fundada em 1902, com o nome de Fugidos, relacionado a tr\u00eas ex-escravos negros que ali viviam em estado selvagem. Na medida que o povoado crescia, decidiram rebatiz\u00e1-la com o nome de Borborema, apelido de um morador paraibano que nascera na Serra de Borborema. Dizem os entendidos, que em tupi-guarani Borborema significa \u201cterra de ningu\u00e9m\u201d.<br \/>\n<\/strong><strong>Os japoneses foram para l\u00e1 como agricultores. Antes da II Guerra Mundial, a regi\u00e3o se tornara pujante produtora de algod\u00e3o.<br \/>\n<\/strong><strong>Na segunda metade dos anos 30, os Oishi, fam\u00edlia de minha m\u00e3e, possu\u00edam um armaz\u00e9m de secos e molhados. Nessa \u00e9poca, papai apareceu por l\u00e1, como vendedor-viajante. Como tinha forma\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil no Jap\u00e3o, meu tio lhe ofereceu emprego. Acho que aceitou ao conhecer mam\u00e3e, ca\u00e7ula da fam\u00edlia (com a irm\u00e3 mais velha ensinava corte e costura). Quando nasci, em 1939, n\u00f3s sa\u00edmos de Borborema, e fomos tentar a sorte no sert\u00e3o. Papai fez de tudo: cultivou terra, administrou fazendas, gerenciou serraria e viajou vendendo madeira.<br \/>\n<\/strong><strong>A titia que era s\u00f3cia de mam\u00e3e na escola de corte e costura, tamb\u00e9m se casara.\u00a0 Seu marido era fot\u00f3grafo itinerante e abriu o primeiro ateli\u00ea fotogr\u00e1fico da cidade, mas morre alguns anos depois, e titia assume o est\u00fadio, ajudada pela filha Miyoko, ainda mocinha. Em 1949 eu volto para Borborema e vou morar com elas. N\u00e3o havia o 3\u00ba ano na escola da fazenda \u201cKuriki\u201d que papai administrava. Foi esse per\u00edodo que mais me impulsionou para o mundo dos quadrinhos e dos desenhos. Al\u00e9m dos estudos, eu as ajudava em tarefas caseiras, pois a titia e a prima estavam sempre ocupadas com fotografia. Em retribui\u00e7\u00e3o, ganhava muitos gibis que um bilheteiro de trens sa\u00eda vendendo durante suas folgas. Fora os gibis, tamb\u00e9m recebia ingresso para as matin\u00eas de domingo. Duas fortes influ\u00eancias que faziam minha imagina\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a fervilhar, a ponto de pegar no l\u00e1pis e sair enchendo pap\u00e9is de embrulhos e orelhas de jornais com cenas toscas de bandidos e mocinhos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu pai era um homem rigoroso, como um militar, de temperamento dif\u00edcil?<br \/>\n<strong>Papai era homem de pouco riso. Ficara \u00f3rf\u00e3o aos 5 anos. Vov\u00f4 se feriu gravemente quando servia como tenente da cavalaria. Na reserva, chegou a dirigir o correio de Tamaki, no distrito de Shingu, antes de morrer. Papai recebeu tutela parcial de um tio, instrutor de kend\u00f4 e yawara-jutsu <\/strong>(arte marcial de combate corporal, semelhante ao jud\u00f4) <strong>no quartel do ex\u00e9rcito da prov\u00edncia de Wakayama. \u00c0s 4 horas da manh\u00e3, antes de seguir para o trabalho, fazia papai treinar esgrima, mesmo sob neve. Por estresse e frio, ele pedia para urinar com muita freq\u00fc\u00eancia, e ganhou do tio o apelido de \u201cxobentar\u00ea\u201d (mij\u00e3o). Na adolesc\u00eancia entrou para um templo budista como noviciado, mas faltou-lhe voca\u00e7\u00e3o e desistiu. Nossos ancestrais, como guerreiros, serviram no shogunato de Oda Nobunaga, o primeiro l\u00edder que deu in\u00edcio \u00e0 reunifica\u00e7\u00e3o do Jap\u00e3o \u2013 conhecido por per\u00edodo Momoyama (1568 \u2013 1600).<br \/>\n<\/strong><strong>Apesar de disciplinado e rigoroso, papai tinha dificuldades em me enquadrar. Sempre fui o mais rebelde dentre seus 4 filhos. Ele queria que eu estudasse eletrot\u00e9cnica, insistindo que artistas morriam de fome. Faleceu aos 54 anos. Hoje, depois de velho, reconhe\u00e7o sua grande contribui\u00e7\u00e3o para a minha vida, e lhe sou profundamente grato. E confesso que, como pai, tamb\u00e9m enfrento dificuldades em passar valores herdados para os meus filhos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial, sua fam\u00edlia sofreu preconceitos? Como era o seu dia-a-dia?<br \/>\n<strong>Eu era ainda muito crian\u00e7a e n\u00e3o percebi preconceitos durante a guerra. Conviv\u00edamos com vizinhos brasileiros e japoneses normalmente. Nesse per\u00edodo pr\u00e9-escolar eu s\u00f3 brincava, sozinho ou com outras crian\u00e7as. Ia nadar, andar a cavalo, errar pelas matas procurando frutinhas, ou ninho de passarinhos, e rabiscar jornais, tra\u00e7ar figuras no ch\u00e3o com galhinhos secos.<br \/>\n<\/strong><strong>S\u00f3 ap\u00f3s o fim da guerra com a derrota do Jap\u00e3o, tomei conhecimento de alguns incidentes raciais contra japoneses. Conhecidos de papai reclamavam que eram rejeitados em alguns hot\u00e9is, ou n\u00e3o podiam viajar em vag\u00f5es de 1\u00aa classe, e muitas mo\u00e7as sofriam estupros nos campos. Ocorria tamb\u00e9m casos de roubo, e at\u00e9 assassinatos.<br \/>\n<\/strong><strong>Vou contar um acontecimento envolvendo papai, em 1946, na fazenda de Sr. Kuriki. Todos os s\u00e1bados, como administrador, papai coordenava a distribui\u00e7\u00e3o de provis\u00f5es para uma semana aos colonos agregados, brasileiros e japoneses. Um deles, caboclo, voltou de m\u00e3os vazias. Motivo: sua lavoura vivia abandonada, tomada de ervas daninhas. Vivia embriagado, sem condi\u00e7\u00f5es para o trabalho. Ap\u00f3s repetidas advert\u00eancias sem resultado, o patr\u00e3o mandou que lhe cortassem os mantimentos. \u00c0s sextas papai sa\u00eda a cavalo para inspecionar as planta\u00e7\u00f5es, e na volta, margeando um denso canavial, salta-lhe \u00e0 sua frente, brandindo uma foice, o caboclo que aguardava de tocaia. O cavalo empinou, mas papai n\u00e3o caiu. O atacante vociferou possesso: \u201cV\u00f4 ti mat\u00e1 Jap\u00e3o fiudaputa!!! Ti matu, Jap\u00e3o!\u201d mesmo tr\u00f4pego, o atacante era perigoso, e papai decidiu se afastar e retornou \u00e0 sede da fazenda. No entanto, not\u00edcias assim se espalhavam mais r\u00e1pidas que o vento. \u00c0 noite, um grupo de colonos japoneses com caras amarradas veio procurar papai. Propuseram linchar o agressor, e enterrarem o corpo em algum ermo das planta\u00e7\u00f5es. Papai ficou p\u00e1lido como farinha, e condenou de forma veemente tal id\u00e9ia, argumentando que todos acabariam presos, cedo ou tarde. \u201cAl\u00e9m disso, o homem tem esposa e 3 filhos pequenos. Nem pensar!\u201d, objetou papai. O patr\u00e3o Kuriki decidiu por expuls\u00e3o, pois o colono relapso mostrara-se trai\u00e7oeiro e perigoso. Na manh\u00e3 seguinte, acompanhado por 3 pe\u00f5es, papai foi levar a ordem de expuls\u00e3o. Avistou al\u00e9m dos canaviais uma densa esteira de fuma\u00e7a, e surpresa! Da cabana s\u00f3 restavam brasas e cinzas, em meio a ferragens de equipamentos agr\u00edcolas, enegrecidos pelo fogo. O po\u00e7o que ficava no quintal estava entupido de entulhos. At\u00e9 madeiras do cercado fora jogado dentro. Papai sentiu ali um al\u00edvio indescrit\u00edvel. O caboclo tinha fugido arrastando a fam\u00edlia&#8230;<br \/>\n<\/strong><strong>Outro incidente, em 1947, aconteceu comigo, quando entrei para o Grupo Escolar de Vila Castilho, na comarca de General Salgado. Sofri persegui\u00e7\u00e3o racial intensa, a ponto de querer deixar a escola, e ter raiva de ter nascido no pa\u00eds. Ao me verem, os alunos costumavam cantar em c\u00f4ro: \u201cO Jap\u00e3o perdeu a guerra! O Jap\u00e3o perdeu a guerra!!!\u201d da agress\u00e3o verbal, passaram para a agress\u00e3o f\u00edsica. No recreio formavam um corredor polon\u00eas e me enchiam de sopapos at\u00e9 eu desabar doutro lado, ent\u00e3o alguns me chutavam. Como eu tinha sofrido parcial paralisia infantil ao nascer, eu usava bota corretiva na perna direita, outro motivo para chacotas. Esse trauma deixou-me marcas profundas, que s\u00f3 o tempo curou. Mas papai me ajudou muito, e como. Pregava que nada era mais abomin\u00e1vel que v\u00edtima passiva, e entre viver sem dignidade ou morrer, preferia o \u00faltimo. Ele escreveu uma carta \u00e0 minha professora denunciando minha situa\u00e7\u00e3o escolar, e ela admoestou os alunos envolvidos nos maus tratos. A\u00ed \u00e9 que ficou pior, at\u00e9 me xingaram de mulherzinha e dedo duro. Lamento dizer isso, mas conclu\u00ed que crian\u00e7as podem ser piores que adultos em certas circunst\u00e2ncias. Frustrado, decidiu que eu mesmo tinha que me defender. Como que incorporasse seu severo tio, antes do jantar, logo que chegava do trabalho, ministrou-me exerc\u00edcios for\u00e7ados e aulas intensas de esgrima e yawara-jutsu (mistura de aiki-jujutsu com jiujitsu). E nas f\u00e9rias tinha treinos extras, e em crian\u00e7a o corpo responde desenvolvendo-se com assombrosa rapidez. Certo dia derrubei papai durante o treinamento. N\u00e3o tenho certeza se ele forjou sua queda, mas a minha auto-estima subiu como um roj\u00e3o. Conseguira um feito que, no meu entender, nenhum daqueles colegas da escola seria capaz. Na manh\u00e3 do rein\u00edcio das aulas, um guri chamado Gilberto, que usava capacete de ca\u00e7ador modelo \u201cJim das selvas\u201d, deu-me forte empurr\u00e3o para impressionar um grupo de meninas que conversavam pr\u00f3ximo ao port\u00e3o de entrada. Reagi de pronto acertando-lhe um soco na face direita, e dois seguidos no peito. Com a face manchada de vermelho e surpreso, come\u00e7ou a recuar de costas, mas n\u00e3o aliviei, tomado de raiva acumulada durante um semestre de humilha\u00e7\u00f5es e maus tratos. Ouvi meninas aplaudindo, e para minha surpresa, alguns meninos que come\u00e7aram a\u00e7ulando o agressor, gritando \u201cQuebra o Jap\u00e3o, quebra!\u201d, passaram tamb\u00e9m a vai\u00e1-lo, decepcionados. Depois do t\u00e9rmino das aulas, um grupinho me esperava na estrada, fora da vila. Era formado por 5 garotos, que faziam o mesmo trajeto que o meu, de 5 a 6 quil\u00f4metros, filhos de sitiantes e fazendeiros, vizinhos do s\u00edtio de papai. Atraquei-me com um deles, que vestia uniforme bem alinhado, vestindo camisa fina, que reduzi a trapos em segundos. A minha, de tecido de saco de farinha s\u00f3 ficou amarrotada. Um passante interferiu, e a briga parou sem envolver o resto da turma. Adiantaram o passo pela estrada, e eu fiz o oposto. Estava tr\u00eamulo pelo efeito da adrenalina. Quando cheguei perto do cercado do nosso s\u00edtio, eles que estavam emboscados partiram para cima de mim, brandindo paus e pedras. Agarrei e tomei o galho nodoso de Jo\u00e3o, o l\u00edder e pasme, ele era sobrinho do fazendeiro Pomp\u00edlio, meu padrinho de batismo (fui batizado tardiamente, aos 7 anos). Fui desferindo golpes a esmo como um tresloucado, mesmo ferido na cabe\u00e7a e no corpo por pedradas. Outro passante, um caboclo a cavalo interveio, amea\u00e7ando contar aos nossos pais sobre a briga, em que todos sa\u00edmos feridos. Ponto final. Ningu\u00e9m mais buliu comigo no 2\u00ba semestre. Apanhando ou vencendo, nunca mais hesitei em revidar as agress\u00f5es verbais ou f\u00edsicas. Assim, era de se esperar que surgissem muitos incidentes na minha vida. Dois merecem destaque. O primeiro ocorreu em 1956, dentro do trem Santos-Jundia\u00ed, quando ia ao trabalho. Era desenhista principiante do departamento de promo\u00e7\u00f5es nas Lojas Sears de \u00c1gua Branca. Engalfinhei-me com 2 batedores de carteira e levei uma cabe\u00e7ada no nariz e socos e pontap\u00e9s por tr\u00e1s. Passageiros do trem e um policial intervieram. Reclamei que tentaram me roubar, a\u00ed os passageiros testemunharam a favor dos ladr\u00f5es, ent\u00e3o o guarda me repreendeu, pois a minha carteira estava comigo. Xinguei-o de parceiro dos punguistas e me prendeu. Na esta\u00e7\u00e3o de desembarque (Luz), quando me conduzia \u00e0 chefatura, eu lhe disse que era menor de idade. Conferiu minha identidade e ao me liberar, disse-me em tom paternal: \u201cGaroto, voc\u00ea \u00e9 muito impulsivo, e ainda me desacatou em p\u00fablico. Controle esse g\u00eanio!\u201d. Outro caso foi de tr\u00e2nsito, em 1970 ou 71, n\u00e3o importa, eu estava dirigindo meu carro na hora do rush, descendo a Rua Tabatinguera (S\u00e3o Paulo), e um carro vinha \u201ccosturando\u201d apressado vindo l\u00e1 de tr\u00e1s. Emparelhou-se \u00e0 minha direita tentando cortar-me a frente. N\u00e3o lhe abri espa\u00e7o e segui a fila. Quando desembocamos na Rua Glic\u00e9rio, mais larga, com um b\u00f3lido o carro \u201ccosturador\u201d passou-me \u00e0 frente obliquamente e freou, quase colidimos, parando o tr\u00e2nsito. Desceram 4 rapazes, todos bem vestidos, de terno. Eu tamb\u00e9m desci para n\u00e3o ser flagrado sentado. Vieram amea\u00e7adores. Um deles, nissei, agarrou a antena do r\u00e1dio e come\u00e7ou a entort\u00e1-la. Perdi o controle e fui para cima, ent\u00e3o outro que estava perto sacou uma pistola e encostou no meu peito. Das janelas de \u00f4nibus lotado, assim de gente, assistiam e decidi n\u00e3o amarelar e berrei: \u201cATIRAA, FILHUDAPUTA! ATIRAA!\u201d&#8230; o nissei puxou empurrando-o de volta para o carro. Embarcaram e foram-se cantando pneu. Eu fiquei uns 10 minutos parado dentro do carro, l\u00edvido, sentindo o corpo gelado, apesar do calor&#8230; e finalmente os buzina\u00e7os impacientes dos carros de tr\u00e1s me devolveram \u00e0 a\u00e7\u00e3o e fui para casa, em Santo Andr\u00e9. Mam\u00e3e p\u00f4s a comida na mesa, mas n\u00e3o comi, e naquela noite n\u00e3o consegui dormir. Eu podia ter sido morto em plena rua, por teima besta de tr\u00e2nsito. E desde ent\u00e3o, decidi me controlar de forma calculada evitando impasses.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que faziam em Ferraz de Vasconcelos? Pelo menos era perto de S\u00e3o Paulo. Foi dali que o Sr foi procurar as editoras?<br \/>\n<strong>Em 1953 papai perdeu o emprego de tradutor das Lojas Cassio Muniz. Sua fun\u00e7\u00e3o era verter os an\u00fancios em portugu\u00eas para o japon\u00eas, que eram veiculados em revistas e jornais dirigidos aos japoneses imigrados. Estava com mais de 40 anos. Foi vendedor de seguros; foi tentar ser fot\u00f3grafo, e at\u00e9 estagiou num est\u00fadio; foi ser aprendiz de alfaiate; e, ent\u00e3o cismou em criar galinha. Escolheu para nosso aprendizado em avicultura a maior das granjas da \u00e9poca, e ela estava em Ferraz de Vasconcelos, chamava-se Higuti ou Higuchi, j\u00e1 n\u00e3o me lembro com precis\u00e3o. Foi um per\u00edodo dur\u00edssimo para nossa fam\u00edlia. Eram 16 horas di\u00e1rias de trabalho intenso para papai, mam\u00e3e, eu e mano Higino, que tinha 9 anos (ao voltar da escola, tinha que ajudar tamb\u00e9m). Outros irm\u00e3os eram crian\u00e7as de 6 e 4 anos. E o pagamento total mal empatava com o sal\u00e1rio m\u00ednimo.<br \/>\n<\/strong><strong>Decidimos sair, pois a preocupa\u00e7\u00e3o maior passou a ser o estudo, e estando l\u00e1 era imposs\u00edvel, impratic\u00e1vel. E fomos para o munic\u00edpio de Santo Andr\u00e9. Papai arranjou emprego na f\u00e1brica Fontoura-Wieth, no setor de cultivo de antibi\u00f3ticos, onde monitorava a temperatura das incubadeiras. Era local insalubre, de ilumina\u00e7\u00e3o de l\u00e2mpadas infravermelhas. As mo\u00e7as que l\u00e1 trabalhavam acabavam est\u00e9reis. Aos 54 anos, papai morreu de c\u00e2ncer quando ainda trabalhava nos laborat\u00f3rios. Fora antibi\u00f3ticos e vacinas, o produto mais popular deles era Kolynos, pasta dentifr\u00edcia. Mam\u00e3e passou a costurar para fora. Era comum v\u00ea-la pedalando sua Singer madrugada a dentro. Aos 15 anos fui trabalhar na matriz da cadeia de lojas Buri. Entrei como estoquista, e tempos depois fui promovido a sub-chefe do setor, sempre alimentando o sonho de me tronar desenhista. Tanto que na \u00e9poca matriculei-me na Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Belas Artes. Com inten\u00e7\u00e3o de melhorar de sal\u00e1rio fiz testes em 2 multinacionais: Pneus Goodyear e Sears-Roebuk. Aprovado em ambos, optei pela \u00faltima, para desenhista, a carreira dos meus sonhos.<br \/>\n<\/strong><strong>A frustra\u00e7\u00e3o n\u00e3o tardou. Por n\u00e3o ter experi\u00eancia de profissional, minha fun\u00e7\u00e3o rotineira era de office boy! A frustra\u00e7\u00e3o se transformou em raiva, e em 6 meses tentaram transferir-me para departamento de aparelhos dom\u00e9sticos e a\u00ed me demiti, no dia que fazia 17 anos. Colecionei recortes de an\u00fancios procurando desenhistas, mas n\u00e3o emplaquei. A falta de experi\u00eancia era como estigma. Decidi procurar editora de quadrinhos. Sorte. Na Novo Mundo fui bem recebido pelo diretor, Miguel Falcone Penteado. Avaliou e criticou defeitos, aconselhou, e deu-me um teste: substituir as p\u00e1ginas de <em>Acredite se quiser<\/em>, de Ripley\u2019s. Apesar do frio na barriga, topei. Criei <em>Agora sei que<\/em>, sobre mitologias e curiosidades hist\u00f3ricas e geogr\u00e1ficas universais. Aprovou e me disse: \u201c\u00c9 preciso amadurecer mais seu tra\u00e7o, mas noto uma grande teimosia em seu trabalho. Fa\u00e7a disso combust\u00edvel para sua evolu\u00e7\u00e3o.\u201d Depois apresentou-me a Jayme Cortez que, como amigo, costumava visit\u00e1-lo. Ele era diretor de arte da Editora LaSelva, e ent\u00e3o ele deu-me para desenhar <em>Fusarca &amp; Torresmo<\/em> e <em>Arrelia e Pimentinha<\/em>, personagens de circo de grande sucesso da televis\u00e3o. Nessa \u00e9poca, a prefeitura de Santo Andr\u00e9 promoveu o concurso de cartazes dos Jogos Abertos do Interior que iria ser realizado na cidade. Concorri e fui premiado em 1\u00ba lugar, e com o dinheiro ganho mandei fazer um terno. Antes s\u00f3 usava roupa de papai, reformada por mam\u00e3e.<br \/>\n<\/strong><strong>E a grande chance dos quadrinhos nacionais viria em 1958, com a inaugura\u00e7\u00e3o da Editora Continental, por motivos legais foi rebatizada de Outubro. Surgiram ent\u00e3o v\u00e1rios talentos do quadrinho brasileiro.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se sustentava enquanto n\u00e3o podia viver de quadrinhos?<br \/>\n<strong>Na grande crise dos quadrinhos, mais uma vez fui socorrido por Miguel Penteado. Indicou-me para a grande Editora do Brasil, especializada em livros did\u00e1ticos, e desenhei quadrinhos para o jornal Folha de S\u00e3o Paulo, sobre causos do futebol paulista.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua fam\u00edlia apoiava o seu dom, ou queria que abandonasse?<br \/>\n<strong>Mam\u00e3e tinha posi\u00e7\u00e3o neutra, mas papai se tornou radicalmente contra, dizendo que o fim comum dos artistas era morrer na pen\u00faria. E tamb\u00e9m o meu baixo rendimento escolar fazia com que papai come\u00e7asse a rasgar e incinerar qualquer gibi que encontrasse, at\u00e9 os ocultos em baixo da cama, que algum irm\u00e3o meu denunciava, ap\u00f3s alguma briga.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual era a divers\u00e3o mais comum entre os jovens nikkeis da sua \u00e9poca?<br \/>\n<strong>Como p\u00f4de perceber, eu n\u00e3o convivi com jovens de comunidades nikkeis, e n\u00e3o tenho nenhuma opini\u00e3o de como eles se divertiam. Presumo que a maioria deixava a col\u00f4nia para ir \u00e0 capital em busca de estudos, como fizeram meus primos, e procuravam empregos, acelerando o processo de integra\u00e7\u00e3o aos costumes locais.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ADESP foi a primeira associa\u00e7\u00e3o de desenhistas de quadrinhos do Brasil? O que essa entidade fazia?<br \/>\n<strong>Quase uma d\u00e9cada antes da ADESP, em 1951, um grupo de entusiastas dos quadrinhos formados por \u00c1lvaro Moy\u00e1, Miguel F. Penteado, Jayme Cortez, Syllas Roberg e Reinaldo de Oliveira, mobilizaram-se para neutralizar uma feroz campanha contra os quadrinhos acionada pelos setores conservadores da intelectualidade: psic\u00f3logos, educadores e expoentes da m\u00eddia. Montaram em S\u00e3o Paulo a 1\u00aa Exposi\u00e7\u00e3o Internacional dos Quadrinhos a ser realizada no mundo. Devia estar no Guinness.<br \/>\n<\/strong><strong>A famosa mostra teve lugar no Centro Cultura e Progresso, espa\u00e7o cedido pela comunidade judaica, da Rua Jos\u00e9 Paulino. Cartazetes com fotos de expoentes da cultura internacional que adoravam quadrinhos foram colados sob um grande t\u00edtulo em letras garrafais: \u201cN\u00d3S LEMOS HIST\u00d3RIA EM QUADRINHOS\u201d. <\/strong><strong>Eram fotos de Orson Welles, William Falkner, Thomas Mann, John steinbech, Thornton Wilder, Dorothy Parker, entre outros.<br \/>\n<\/strong><strong>A ADESP foi fundada nos in\u00edcios dos anos 60, com a presen\u00e7a do assessor do presidente J\u00e2nio Quadros, rec\u00e9m-eleito. Os jornais e as televis\u00f5es registraram o evento. A sede ficava no 19\u00ba andar do velho edif\u00edcio Martinelli, na Rua S\u00e3o Bento. Era na verdade o est\u00fadio de 4 s\u00f3cios desenhistas: eu, Saidenberg, Lyrio Arag\u00e3o e Igayara. A id\u00e9ia do movimento partiu de Miguel Penteado, que costumava visitar-nos para um papinho. Foi dele tamb\u00e9m a sugest\u00e3o de elegermos o articulado Maur\u00edcio de Souza para presidir a ADESP. Ganhou por unanimidade. A miss\u00e3o da ADESP era de unir a dispersa classe de desenhistas de quadrinhos, de publicidade e ilustradores, numa \u00fanica entidade. Alguns roteiristas e redatores de publicidade pediram ades\u00e3o, justificando que sofriam problemas similares aos dos artistas do pincel. Foi redigido um memorial de reivindica\u00e7\u00f5es da classe que o assessor se incumbiu de entregar ao J\u00e2nio. Pedia-se a regulamenta\u00e7\u00e3o para que se tornasse obrigat\u00f3ria a inclus\u00e3o gradual de material nacional em todas as publica\u00e7\u00f5es de quadrinhos no Brasil, em quotas progressivas, a partir do m\u00ednimo de 30%. O projeto foi engavetado no senado presidido por Dr. Eloy Dutra, pressionado pelas grandes editoras do Rio e de S\u00e3o Paulo. ADESP ficou mortalmente ferida, e muitos desenhistas sofreram boicotes de trabalho, outros aceitaram ass\u00e9dio, e ganharam contratos de emprego. N\u00e3o os recrimino, pois muitos eram casados, com mulher e filhos para sustentarem, como o Arag\u00e3o e Igayara. Eu e Saidenberg \u00e9ramos solteiros, e sofremos persegui\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a CTPA? Essas entidades trouxeram algum resultado?<br \/>\n<strong>Ao contr\u00e1rio da ADESP que dependia de mensalidades simb\u00f3licas dos associados, a CETPA teve ajuda financeira do governo do Rio Grande do Sul. Leonel Brizola era o governador, e o presidente da entidade era o desenhista carioca Jos\u00e9 Geraldo Baptista. A CETPA trouxe algum resultado pois chegou a produzir e editar v\u00e1rias revistas e \u00e1lbuns em quadrinhos. Eu desenhei <em>A hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul<\/em>; Saidenberg <em>A hist\u00f3ria da Cooperativas<\/em>; Colin <em>Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa<\/em>; Bendati <em>O Lupinha<\/em>; Get\u00falio Delphin <em>O aba larga<\/em>; Canini <em>Z\u00e9 Candango<\/em>; e Fl\u00e1vio <em>O Piazito<\/em>. Lan\u00e7ou-se tamb\u00e9m fotonovela para mo\u00e7as, cujo t\u00edtulo era <em>Flerte<\/em>. Tierry, um grande ilustrador, produzia capas e ilustra\u00e7\u00f5es. A CETPA era muito ativa. Mas virou cabide de empregos para burocratas ligados ao governo, e isso era danoso. E logo em seguida veio a ren\u00fancia de J\u00e2nio, e deposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart, e Brizola teve de se exilar. A\u00ed foi o fim para a CETPA.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a ditadura o Sr chegou a ser preso. Poderia explicar melhor?<br \/>\n<strong>Aconteceu no in\u00edcio dos anos 70 (governo do General M\u00e9dici), fui acusado de apoio log\u00edstico ao terror pelo fato de ter participado da lista de ajuda ao meu ex-patr\u00e3o, Carlos H. Knapp, que estava na Europa como refugiado pol\u00edtico. Estava l\u00e1 s\u00f3 com a roupa do corpo. O problema de Knapp foi que a mulher dele, soci\u00f3loga, comandou um grupo de subversivos no assalto ao Banco Am\u00e9rica do Sul (Nambei Ginko) do bairro da Penha. Morreu um guarda, e um dos subversivos foi ferido com tiro na cabe\u00e7a. Levaram-no \u00e0 resid\u00eancia do meu ex-patr\u00e3o, na regi\u00e3o dos Jardins, em Sampa. Precisavam urgente de sangue, a\u00ed Knapp levou o grupo at\u00e9 um hemobanco, armados. Horas depois, o cerco policial come\u00e7ou a se fechar. A vizinhan\u00e7a denunciou o cheiro insuport\u00e1vel de queima de ataduras ensopadas de sangue. Fugiram. Knapp conseguiu chegar a Porto Alegre disfar\u00e7ado de padre, e embarcou no avi\u00e3o para a Fran\u00e7a, com ajuda de amigos. Eu fui preso dentro da ag\u00eancia Standard Propaganda, onde trabalhava como diretor de arte. Fui levado pelos federais e entregue \u00e0 tem\u00edvel OBAN (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes), grupo de repress\u00e3o do ex\u00e9rcito, sediado no QG da Rua Tut\u00f3ia. E interrogaram-me o dia inteiro, em meio a gritos e berros vindos das depend\u00eancias pr\u00f3ximas. \u00c0 noite, em cela sem leitos, o vento frio vindo do imenso p\u00e1tio de manobras atravessava as grades e fustigava nossos corpos estendidos sobre folhas de jornais, em duro piso de cimento. Entre tr\u00e9guas de sons doridos dos torturados, dava para perceber as pulgas agitadas pelo nosso suor acre, dando saltos quase inaud\u00edveis quando algu\u00e9m se revirava pelo desconforto. Depois de um certo tempo, fomos transferidos para as depend\u00eancias que ficava no subsolo da DOPS (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social), pr\u00f3ximo da esta\u00e7\u00e3o Sorocabana. L\u00e1 fomos novamente interrogados, e fomos misturados aos conhecidos militantes de a\u00e7\u00e3o armada, urbanas e rurais (ligas camponesas). Acho que nos monitoraram com recursos eletr\u00f4nicos. Os presos nos aconselharam a nos autocensurar, falar s\u00f3 sobre amenidades, como futebol, m\u00fasica, ou cinema. Alguns desconfiavam de n\u00f3s e faziam perguntas disfar\u00e7adas sobre nossa profiss\u00e3o de publicit\u00e1rios. Semanas depois, apenas n\u00f3s publicit\u00e1rios, ligados \u00e0quela lista de Knapp, fomos libertados. Nossos nomes circularam com destaque nas m\u00eddias, mas apenas um primo meu, como que casualmente, perguntou-me sobre o incidente. At\u00e9 meus irm\u00e3os n\u00e3o ousaram tocar no assunto. Um deles, discretamente fez sumir meus livros de temas pol\u00edticos, quando soube da minha pris\u00e3o. Mam\u00e3e, hoje com quase 92 anos, nem sabe do ocorrido.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que resolveu mudar para o Rio?<br \/>\n<strong>Percebi que ao nos libertarem sem processo, mantinham a gente sob vigil\u00e2ncia. Seguiam-nos. Comecei a ficar paran\u00f3ico, andando na rua, entrando em restaurantes, ou em fila de cinema, parecia estar sendo observado. Isso come\u00e7ou a pesar psicologicamente no meu rendimento como profissional que vivia de criatividade. E minha vinda pro Rio foi positiva, em pouco tempo trabalhando numa ag\u00eancia pequena, ela cresceu e tornei-me um dos mais premiados diretores de arte do estado. A ag\u00eancia era Caio Domingues &amp; Associados, na \u00e9poca era considerada uma das 5 melhores ag\u00eancias do Brasil.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 o seu trabalho hoje? Ainda dedica a maior parte do tempo com quadrinhos?<br \/>\n<strong>Estou completamente afastado da publicidade, e decidi dedicar-me aos quadrinhos, roteiros e ilustra\u00e7\u00f5es nessa etapa da minha vida. Al\u00e9m dos quadrinhos, \u00e9 emocionante lidar com os desafios complexos de um roteiro, e dos temas e cores de uma ilustra\u00e7\u00e3o. Por exemplo, gosto muito de desenhar capas. \u00c9 uma arte de suma import\u00e2ncia, pois se requer impacto, emo\u00e7\u00e3o e beleza, despertando a aten\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel comprador. O sucesso e o fracasso de uma revista ou livro come\u00e7a na capa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais s\u00e3o os seus trabalhos mais recentes?<br \/>\n<strong><em>Guerreiros da \u00e1gua<\/em>, projeto da escritora e roteirista Anne Rachel Sampaio para conscientiza\u00e7\u00e3o dos jovens para a necessidade de preservar as bacias de \u00e1guas, hoje t\u00e3o ou mais vitais que o petr\u00f3leo. A coloriza\u00e7\u00e3o digital foi de Adauto silva. <em>Musashi<\/em> e <em>Zatoichi<\/em>, para a Ed. Mythos, livros escritos por Minami Keizi, fiz as capas e ilustra\u00e7\u00f5es. <em>Caolho<\/em>, roteiro do jornalista e publicit\u00e1rio Iramir Araujo, fiz a capa e quadriniza\u00e7\u00e3o de uma das hist\u00f3rias. Capas para <em>O Ga\u00facho<\/em>, que a SM Editora est\u00e1 relan\u00e7ando. S\u00e3o trabalhos que publiquei nos meados dos anos 60 na Folha de S\u00e3o Paulo. Capa para a revista Quadrinh\u00f3pole, ainda in\u00e9dita. Capas e HQs avulsas co roteiros meus, para <em>Billy the Kid e outras hist\u00f3rias<\/em>, agora no 6\u00ba n\u00famero. O livro-quadrinhos <em>Banzai<\/em>, projeto e roteiro de Francisco Noriyuki Sato sobre os 100 anos de imigra\u00e7\u00e3o japonesa no Brasil, que desenhei. Tivemos ajudas de Paulo Fukue no roteiro, e de Adauto Silva para finaliza\u00e7\u00e3o de reticulados e letreiramento por sistema digital. <em>Cl\u00e1ssicos de terror<\/em>, fiz a capa para essa edi\u00e7\u00e3o de minhas HQs dos anos 60, coordenada por Wellyngton Srbek para a editora Maca de Fantasia. E finalmente, estou com as m\u00e3os numa HQ que ser\u00e1 incorporada numa revista especial da editora Escala sobre os 100 anos da imigra\u00e7\u00e3o japonesa, que Franco de Rosa est\u00e1 coordenando.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como v\u00ea o quadrinho brasileiro atual? Existe possibilidade dos artistas nacionais voltarem a ter seu espa\u00e7o no Brasil?<br \/>\n<strong>Vejo ma intensa atividade do quadrinho brasileiro em forma de publica\u00e7\u00f5es independentes, ou alternativas, com tiragens limitadas. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a inform\u00e1tica \u00e9 a respons\u00e1vel por esse boom, barateando e democratizando, ao reduzir verticalmente os custos de produ\u00e7\u00e3o. No passado recente uma tiragem de 5 mil exemplares corria o risco de dar preju\u00edzo, mesmo com venda total. Hoje \u00e9 comum tiragens entre 200 e 2 mil exemplares, desde que vendidas em pontos de venda seletivas (gibiterias ou livrarias), nunca em bancas, claro.<br \/>\n<\/strong><strong>E o bom disso tudo \u00e9 estar se revelando talentos novos, que acabam conquistando espa\u00e7o no mercado externo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como v\u00ea o avan\u00e7o do mang\u00e1 no Brasil?<br \/>\n<strong>Com naturalidade, sem reservas. Mang\u00e1 \u00e9 fen\u00f4meno mundial, que veio para ficar e expandir, como a culin\u00e1ria japonesa, gostem ou n\u00e3o. Nada adiantar\u00e1 opor resist\u00eancia. Acho sensato buscar (n\u00e3o digo aderir) incorporar em nossos trabalhos os fatores positivos do mang\u00e1, assim como fizemos com o quadrinho americano e europeu. O quadrinho n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o nossa, tem origem etnol\u00f3gica e cosmopolita. Surgiram nas cavernas primitivas, prosseguiram nos murais ass\u00edricos, babil\u00f4nicos, eg\u00edpcios, greco-romanos, \u00edndicos, asi\u00e1ticos, pr\u00e9-colombianos, pain\u00e9is renascentistas, em forma de baixos-relevos ou pinturas. Os quadrinhos se fundem com a hist\u00f3ria do homem. O \u201cmoderno\u201d graffiti \u00e9 o que nossos ancestrais faziam nas paredes das grutas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Sr continua ainda japon\u00eas na ess\u00eancia, ou j\u00e1 \u00e9 um brasileiro por completo?<br \/>\n<strong>Nunca me senti japon\u00eas, exceto no meu per\u00edodo de inf\u00e2ncia escolar, quando sofri forte preconceito. Na adolesc\u00eancia senti-me dividido, metade japon\u00eas e metade brasileiro. Gradualmente essa fronteira foi-se diluindo na medida em que fui ampliando meu espa\u00e7o profissional e minha auto-estima. Hoje sinto-me completamente brasileiro, mas enriquecido com a cultura que herdei de meus pais.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ser\u00e1 a comunidade nipo-brasileira daqui a cinq\u00fcenta anos?<br \/>\n<strong>A forte expans\u00e3o da miscigena\u00e7\u00e3o entre os que s\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o nikkeis, logo uma comunidade nipo-brasileira ser\u00e1 visto como anacr\u00f4nica. Acho muito dif\u00edcil que dure mais duas d\u00e9cadas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como foi o epis\u00f3dio do cartaz do <em>King Kong<\/em>? Na \u00e9poca saiu em todos os jornais.<br \/>\n<strong>Houve uma campanha de difama\u00e7\u00e3o deflagrada visando atingir o Clube de Cria\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro que carregava a bandeira da nacionaliza\u00e7\u00e3o de cartazes de cinema no Brasil. Em qualquer pa\u00eds do primeiro e do segundo mundo, os cartazes de filmes estrangeiros eram refeitos por artistas gr\u00e1ficos e ilustradores locais. A multinacional Metro Goldwin-Mayer incubiu seu comunicador, o famigerado jornalista Humberto di Piero (vulgo \u201cGiba Um\u201d), de desmoralizar a campanha. Foi assim: o CCRJ tinha institu\u00eddo o 2\u00ba concurso de cartazes, agora para <em>King Kong<\/em>, ganha pelo trio formado por Jacques Lewkowics (cria\u00e7\u00e3o), eu (ilustra\u00e7\u00e3o) e Paulo Hiroshi (produ\u00e7\u00e3o). O 1\u00ba concurso, ganho por Malta, foi para o cartaz de <em>Ders\u00fa-Uzala<\/em>, dirigido por Akira Kurosawa, para uma produtora estatal russa. Sem escr\u00fapulos, \u201cGiba Um\u201d que tamb\u00e9m assinava uma coluna de fofocas em principais jornais do Brasil, nos acusou de pl\u00e1gio da capa de maio e uma revista pornogr\u00e1fica americana (Hustler), que nem circulava no Brasil, proibida pela censura da ditadura militar. Ah, e t\u00ednhamos criado e produzido o cartaz em abril, e s\u00f3 a sele\u00e7\u00e3o e a premia\u00e7\u00e3o por jurados aconteceu em maio. Em 2005, quando preparava o livro sobre <em>King Kong<\/em>, o professor e escritor Marco Lucchetti resolveu incluir cap\u00edtulo sobre o caso de acusa\u00e7\u00e3o de pl\u00e1gio, e sua investiga\u00e7\u00e3o descobriu que a tal capa de Hustler que teria nos inspirado nunca existira, nem em 1975, nem em anos precedentes. O Prof. Luchetti consultara os arquivos da Hustler via internet. Se fosse nos EUA, a essa altura estar\u00edamos ricos processando \u201cGiba Um\u201d e a Metro por perdas e danos morais.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe alguma vantagem em ser nissei para desenhar quadrinhos?<br \/>\n<strong>S\u00f3 quando for desenhar temas hist\u00f3ricos e contempor\u00e2neos ligados ao Jap\u00e3o. A cultura herdada dos pais nos d\u00e1 uma boa vantagem. Cansei de ver artistas n\u00e3o nikkeis brasileiros, americanos ou europeus cometerem erros colossais misturando costumes, vestimentas e arquiteturas chinesas, coreanas e mong\u00f3is como se fossem japonesas. Perd\u00e3o, mas n\u00e3o consigo tocar no assunto sem rir por puro constrangimento. Fora isso n\u00e3o temos vantagem alguma.<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agrade\u00e7o-lhe, caro Noriyuki, por essa oportunidade de expor, mesmo que de forma resumida, uma parte da minha vida para os amantes, ou n\u00e3o, dos quadrinhos nacionais. Valeu!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veja outros depoimentos e trabalhos desse grande artista no site <a href=\"http:\/\/www.julioshimamoto.com.br\" target=\"_blank\">www.julioshimamoto.com.br<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Noriyuki Sato, em setembro de 2007. O senhor nasceu em Borborema, mas me parece que hoje n\u00e3o \u00e9 uma cidade cheia de japoneses. Como era essa cidade e o que os japoneses faziam l\u00e1? Com certeza, restam poucas fam\u00edlias de japoneses e nisseis por l\u00e1. Borborema sempre foi uma cidade pequena, de apenas <a href='https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/entrevistas\/julio-shimamoto\/' class='excerpt-more'>[&#8230;]<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":75,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/314"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=314"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":316,"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/314\/revisions\/316"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/75"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.imigracaojaponesa.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}