jun 182018
 

Aozora foi uma banda de música japonesa de São Paulo, muito ativa entre 1951 e 1972. O grupo começou entre amigos japoneses que gostavam de música e foi incorporando jovens cantores e músicos nisseis com o tempo. Se apresentavam no Bunkyo, no Cine Jóia,no Cine Niterói, no Teatro Paramount, na Rádio Cultura, no Sanatório de Campos de Jordão, em Registro, em Bragança, em Lins, no Paraná, e em qualquer kaikan que os convidassem, inclusive tocavam em casamentos e aniversários. Era um grupo amador, não cobrava cachê, e normalmente a entidade ou pessoa dava um “orei” (envelope com dinheiro como agradecimento), o que mal dava para cobrir o transporte.

Os ensaios do grupo geralmente eram realizados na casa do casal Sanshi (倉地三司)e Sakuko Abe Kurachi, tintureiros de profissão. Moravam e trabalhavam no mesmo local, na Avenida Itaboraí, Bosque da Saúde (Praça da Árvore). A sala dessa casa era pequena, mas davam um jeito de acomodar todo o mundo. Os ensaios começavam aos domingos de manhã e não tinha horário para terminar. Muitas vezes, os músicos acabavam almoçando e até jantando na casa do casal. Sanshi Kurachi atuava como maestro, entendia de partituras e orientava os mais jovens. O material, inclusive faixas e as tabuletas da banda, ocupava parte de sua garagem, que era pequena para tanta coisa. Na segunda metade da década de 1960, o casal adquiriu um veículo Fusca, com o qual podia levar os equipamentos no dia da apresentação. Até então dependiam de táxi. O problema é que as apresentações acabavam tarde, e quando eram em bairros mais afastados, como Penha ou Casa Verde, numa época em que não havia metrô, esse Fusca tinha que carregar os que não conseguiam transporte para suas casas. Sakuko conta que chegou a carregar sete pessoas naquele carrinho à noite. Além do material, é claro. Fusca tem como bagageiro apenas a parte arredondada na frente do carro, o motor fica atrás. Por um bom tempo, só ela dirigia, porque seu marido não conseguia passar no exame escrito, por ter dificuldade em entender português.

Além de shows, o grupo se divertia também. Faziam viagens curtas a passeio e faziam piquenique.

Aozora Gakudan tocou também em concursos de canto (antes dos equipamentos de karaokê, os músicos tocavam ao vivo, assim sempre havia ensaios no dia anterior com os cantores, mesmo nos concursos), como o do maestro Masahiko Maruyama (丸山昌彦), presidente da Associação Nipo-Brasileira de Cultura Musical (ブラジル音楽家協会), bastante concorrido, conseguia atrair cantores de várias regiões do Brasil. Ele foi o primeiro a organizar um concurso de música japonesa em São Paulo após a Segunda Guerra Mundial. Maruyama nasceu em Sapporo, Hokkaido, em 1914 no Japão e emigrou para o Brasil em 1933 a bordo do navio Santos Maru. Maruyama, assim como Sanshi, tinha uma outra profissão: ele era bancário. Ele foi gerente do Banco América do Sul, agência Pinheiros, antes de ingressar no Banco Planalto, em 1953.

Sanshi Kurachi nasceu em Nagakute, província de Aichi, em agosto de 1922, e migrou a bordo do La Plata Maru, chegando em outubro de 1934, foi primeiro trabalhar em Lins, junto com seus pais e irmãos. Depois, a família abriu uma tinturaria na Rua dos Otonis, Vila Mariana. Apesar de todo esse tempo dedicado à música japonesa, Sanshi Kurachi ficou conhecido pela sua arte do shodô. Recebeu o nome artístico de “Nampo Kurachi” e deu aulas na Associação Aichi Ken, no Bunkyo, na Escola Oshiman, e na Aliança Cultural Brasil Japão, onde lecionou até seu falecimento aos 92 anos.

Nota: Resolvi escrever este texto e colocar as fotos porque procurei e não encontrei nada sobre a Aozora Gakudan e nem sobre o maestro Masahiko Maruyama na internet. Mesmo nos livros de história da imigração não encontrei nenhuma citação dessa banda e nem das outras que existiram (Heibon, Orion (São José dos Campos), Kosmos (Mogi das Cruzes), Arelux, Saude Gakudan, Os Nisseis, Brazilian Stars (Fernandópolis) Tupi Japan, Royal Japan…). Seria injusto não deixar algo escrito como uma homenagem a elas, mesmo que parcial. Estendo minhas homenagens a todos os músicos que se dedicaram anonimamente a essa arte no passado e, com certeza, distribuíram mais alegria aos imigrantes e descendentes que passavam por uma fase difícil de adaptação. Gentileza nos passar informações complementares e correções, além de nomes das pessoas que aparecem nas fotos para: info@imigraçãojaponesa.com.br

Francisco Noriyuki Sato, formado em Jornalismo pela USP, autor dos livros História do Japão em Mangá, Banzai – História da Imigração Japonesa no Brasil, entre outros, é presidente da Abrademi e editor do site culturajaponesa.com.br. Foi também bolsista da JICA, em 2014, e ministrou palestras em universidades e museus do Japão em 2016. Desde 2017 ministra o Curso Completo de História do Japão, em 9 aulas mensais, em São Paulo.

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